Quando foi escalado para interpretar o vampiro mais famoso de todos os tempos, o húngaro Bela Lugosi não falava sequer uma palavra em inglês. Para dizer suas falas, ele as memorizava foneticamente. O resultado foi uma interpretação aterrorizante. Drácula falava de forma pausada e com um ritmo assustador, lembrando mesmo alguém já meio-morto. Aliás, a fotografia usa e abusa da imagem sinistra de Lugosi. Alguns planos de Drácula só olhando para o público com seu olhar sombrio são comuns, e causaram terror quando exibidos pela primeira vez.

Aliás, a interpretação de Bela Lugosi tornou-se molde para as futuras encarnações do vampiro. Em nenhuma passagem do livro homônimo do escritor irlandês Bram Stoker (que escreveu “Drácula” em 1897) menciona-se um falar pausado nem sinistro como o interpretado por Lugosi em “Drácula”. Apesar disso, tornou-se marca registrada do vampiro, além de seu olhar enigmático. Mesmo em filmes com vampiros que não são Drácula, às vezes, seguem esse modelo. Por mais que tenha se imortalizado no papel, Lugosi só foi viver Drácula novamente na comédia “Bud Abbott Lou Costello Meet Frankenstein”, em 1948.

Por mais que a inspiração tenha vindo do mais bem-sucedido livro de Bram Stoker, o filme “Drácula” é uma adaptação da peça de teatro feita a partir do livro, escrita por Hamilton Deane. Devido aos problemas financeiros da época da Depressão norte-americana, a Universal Pictures não podia bancar uma adaptação fiel ao livro, então optou pela versão simplificada adaptada ao teatro. O próprio Bela Lugosi já havia interpretado Drácula na Broadway, um dos motivos pelo qual foi cogitado para o papel no cinema.

O filme começa com R. M. Renfield, um corretor de imóveis, indo até a mansão do conde Drácula, na Transilvânia. O vampiro está de mudança para a Inglaterra. Durante a noite, porém, as várias mulheres de Drácula o cercam, atrás de seu sangue, mas o conde as impede, dizendo: “Ele é meu”. Na próxima cena, já a bordo de um navio, Renfield já se tornou um completo louco.

A história realmente começa quando Drácula entra em contato com a família do dr. Steward, dono do hospital psiquiátrico para onde Renfield é mandado. A filha do médico, Mina, torna-se objeto de obsessão de Drácula. Um colega do dr. Steward, o dr. Van Helsing, acaba percebendo que Drácula não é uma pessoa normal, aliás, nem uma pessoa, simplesmente porque não tem reflexo.

Drácula teve direção de Tod Browning e Karl Freund. Com roteiro de Garrett Ford, baseado em livro de Bram Stoker, o elenco contava com Bela Lugosi, Helen Chandler, David Manners, Dwight Frye, Edward Van Sloan, Herbert Bunston, Frances Dade.

Conforme era costume na época, foi filmada também uma versão em espanhol, usando os mesmos cenários, mas atores diferentes. Ao contrário de outros filmes, a versão espanhola de “Drácula” foi preservada e já saiu em DVD, inclusive, como parte do box “Classic Monster Collection” da Universal Pictures, que também inclui “Frankenstein”, “O Corcunda de Notre Dame”, “O Fantasma da Ópera” e muitos outros.

O “Drácula” de 1931 é só a primeira adaptação oficial do livro de Stoker. O cineasta expressionista alemão F. W. Murnau já havia feito “Nosferatu” em 1922, só que sem autorização de Stoker. Com isso, o filme sumiu dos cinemas e de qualquer outro tipo de mídia, graças à luta da viúva de Stoker pelos direitos autorais. “Nosferatu” está, hoje, em domínio público.

Créditos: Ricardo Prado

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