Uma lenda desde o início, “Metrópolis” é um filme tão icônico que mesmo quem nunca o assistiu conhece imagens do mesmo ou pelo menos a “robotrix” Futura.

Virou símbolo de ficção-científica, do cinema mudo, do cinema alemão, de super-produção. É tudo isto e muito mais – simplesmente um dos maiores marcos na história da sétima arte.
É muito difícil perceber hoje como o filme é influente uma vez que já estamos acostumados com muitas das coisas estabelecidas por ele, mas é inegável a importância do filme para a cinematografia mundial, sem esquecer de sua qualidade – não apenas foi um filme inovador, é também um filme excelente.

Futura, o design original de C-3PO de “Guerra nas Estrelas” e o C-3PO como conhecemos: inspiração total.

Trama

O filme se passa na cidade de “Metrópolis“, num futuro distópico (até hoje não se sabe o ano – 2.000, 2.026 ou 3.000, dependendo da versão do filme – sobre isso falaremos mais depois), onde os ricos (governantes e industriais) vivem em luxuosas coberturas e os pobres (operários) vivem no subterrâneo.

Um dos personagens principais é Joh Fredersen, uma espécie de Donald Trump, líder da cidade (e dos milionários) e dono do maior arranha-céus da cidade. Um dia, o filho deste milionário, Freder, se apaixona por uma babá, Maria. Só que esta babá não é uma moça pobre qualquer… E ao segui-la, descobre uma realidade que jamais sonhara existir.  continue lendo >>

No jardim dos ricos, Freder – e todos os demais – se impressionam com Maria

Claro, não vou contar nada que estrague o filme, mas acredite – a coisa vai bem longe, de romance a aventura, de ficção-científica a drama, passando por um forte comentário sócio-político (de luta de classes a direitos humanos), tudo com um visual impactante e uma história envolvente.

Estilo

Em plenos anos 20, o diretor Fritz Lang empregou o que sete décadas depois George Lucas usaria para a trilogia original de “Guerra nas Estrelas“: miniaturização, sets gigantes em escala natural, pirotecnia, perspectiva forçada, stop-motion e até mesmo tomadas combinadas com o uso de espelhos. Aliás a única tecnologia que difere da nova trilogia de “Guerra nas Estrelas” e da trilogia de “O Senhor dos Anéis” é que Lang utilizou stop-motion enquanto que George Lucas e Peter Jackson substituiram o stop motion pela tecnologia digital, mas todos os outros elementos estão lá.

P.S.: Outra inovação de Lang foi o lançamento da história sob a forma de livro (escrito por sua esposa e co-roteirista Thea Von Harbou) um ano antes do lançamento do filme, captando assim recursos extras e ao mesmo tempo gerando publicidade para o filme. George Lucas usaria o mesmo artifício meio século depois com “Guerra nas Estrelas”.


O livro de “Metrópolis” (1927), lançado em 1926; o livro de “Guerra nas Estrelas” (1977), lançado em 1976

De maneira muito inteligente, o filme também mistura o expressionismo alemão (vigente na época, muito empregado em filmes de terror) com o art-deco (uma novidade na época, empregada à arquitetura de luxo) – desta forma, temos o sombrio mundo operário acentuado pelo expressionismo, o luxuoso mundo dos ricos enriquecido pelo art-deco e o híbrido laboratório do cientista Rotwang, que une ambos os estilos ao mesmo tempo unindo ambos os mundos na trama (a robotrix Futura, criada por Rotwang, é enviada ao mundo dos operários a pedido do milionário Fredersen).

Gênese

Segundo o diretor Fritz Lang, suas duas maiores influências foram um filme russo e sua visita aos Estados Unidos.

O filme russo foi outra ficção-científica, “Aelita“, de 1924, do diretor Yakov Protazanov (e baseado na obra de Alexei Tolstoy). O filme retrata uma revolução no planeta Marte, obviamente fazendo alusão e defendendo os ideais marxistas como era de costume (obrigatório) na União Soviética da época.

Cenas do filme de ficção-científica russo “Aelita”

Lang não era comunista (disse isso várias vezes do lançamento do filme até a sua morte em 1976), apenas achava que o capitalismo estava caminhando para uma distribuição de renda muito díspare e injusta (o que ocorre até hoje) e deveríamos ter cuidado com isto. E “Metrópolis” deixa isto muito claro, acentuando o diálogo e um capitalismo equilibrado como o ideal e não o uso de violência.

Nos subterrâneos de “Metrópolis”, os operários trabalham como formigas

Quanto à sua visita as EUA, ele havia vindo a Nova York em 1924 para a estréia de “Die Nibelungen“, épico em duas partes (pré-George Lucas e Peter Jackson) baseado na mitologia teutônica.

Ele e a esposa Thea Von Harbou (com quem co-escrevia seus filmes enquanto foram casados) já estavam escrevendo o roteiro há mais de um ano, mas ele admite que os prédios altos e as luzes nova-yorkinos o inspiraram no visual da cidade do filme. Antes da visita, o visual de “Metrópolis” era baseado nos quadros “Torre de Babel” do pintor holandês Pieter Brueghel.

As pinturas “Pequena Torre de Babel” (esq.) e “Torre de Babel” de Pieter Brueghel (dir.) e a arte preliminar de Metrópolis (centro)

Outra grande influência foi a subseqüente visita a Hollywood – em uma tour VIP aos estúdios, ele ficou impressionado com a tecnologia, a estrutura hierárquica verticalizada e o escopo de tudo (cenários, estúdios, etc.) e decidiu fazer aldo de “dimensões hollywoodianas“. Sua descrição para “Metrópolis” era que seria “o filme mais caro e ambicioso jamais feito”, e o que convenceu o estúdio alemão UFA a investir no projeto foi o sucesso da duologia “Die Nibelungen” e o fato de que um filme hollywoodiano afinal de contas interessaria a Hollywood em termos de distribuição (a assumpção foi correta, mas teve seu custo – veja mais abaixo).

Grandeza

Metrópolis” foi o filme mais caro produzido pelo estúdio alemão UFA, quase levando o mesmo à falência (mas foi seu produto mais bem-sucedido e durador), tendo sido também foi o filme mudo mais caro já feito.

Toda a glória do cinema na luxúria de Yoshiwara, a boite de “Metrópolis”

A super-produção custou algo entre 5 e 7 milhões de marcos alemães. Só para dar uma idéia ao leitor, este dinheiro era mais da metade do orçamento anual do estúdio UFA que, com esta verba, teria feito 20 filmes “normais”.

Por outro lado, se convertermos este valor em moeda de hoje, teremos algo em torno de 200 milhões de dólares, e é exatamente isto que uma super-produção hollywoodiana gasta hoje em dia. Então aqui fica a questão: se acharmos que “Metrópolis” realmente foi exageradamente caro, então temos que admitir que Hollywood peca constantemente por passar dos limites…

Rotwang em seu laboratório

A conclusão pode ser tirada das informações que seguem: o orçamento original do filme era de 1,5 milhões de marcos alemães. O custo final ultrapassou o orçamento original de modo tão gradioso por dois motivos: o perfeccionismo e detalhismo doentio do diretor (que se estendia até com os atores – ele não permitiu que o designer Walter Schulze-Mittendorff ajustasse armadura de Futura, que estava machucando a atriz Brigitte Helm, uma vez que “a personagem estava em dor” e portanto a atriz “também deveria estar para ajudá-la no papel”) e a falta de controle dos produtores sobre Lang (as imagens que chegavam ao estúdio eram tão estupendas que este não conseguia dizer “não” ao diretor).

Assim também não dá, né, senhor Lang?

Desta forma, o sonho de Lang em realizar o filme mais ambicioso da época foi realizado: filmado em 310 dias e 60 noites (17 meses de filmagem!), o filme chegou a contar com mais de 36.000 extras e seu set chegou a ser motivo de visitação – a então celebridade Sergei Eisentein e os futuros mestres Alfred Hitchcock e Billy Wilder (outro autríaco que, como Lang, acabou indo parar em Hollywood no futuro – veja mais abaixo) não resistiram e foram “dar uma olhada”.

A luta de classes em um grandioso espetáculo visual

E o filme de fato gerou interesse americano, mas devido ao alto custo do filme, o estúdio alemão precisou fechar acordo com dois estúdios americanos, a Paramount e a MGM.

Começa a novela

O filme estreou em Berlin, na Alemanha, em 10 de janeiro de 1927 com 153 minutos de duração. Se por um lado o estúdio alemão achou o filme de 2 horas e meia maravilhoso (os censores alemães o acharam até educacional), a Paramount o achou muito longo e exigiu cortes.

Como sempre, os americanos estavam acostumados a filmes tendo estrelas como a atração principal (e nenhum dos atores alemães eram conhecidos nos EUA), tramas simples e diretas (a não ser quando os roteiristas e diretores tinham o poder de bater o pé) e desta forma não enxergaram valor no simbolismo colocado por Lang no filme, nem reconheceram que as sub-tramas lideradas por personagens coadjuvantes davam mais substância ao filme. Além do mais, quanto mais curto o filme mais sessões podem ser realizadas no cinema e conseqüentemente mais dinheiro se ganha por dia.

Fredersen e Futura

Desta forma, a Paramount diminuiu o filme em quase uma hora (!) para a versão americana, ao mesmo tempo aproveitando para eliminar tudo o que o público americano pudesse achar controverso.

Foram embora: todo o conflito entre o cientista Rotwang e o industrialista Joh Fredersen em relação a “uma mulher misteriosa” (que não irei revelar aqui) – com a desculpa de que o nome da mulher, Hel, era muito semelhante a “inferno” em inglês,”hell” (vê se pode!!!); também eliminados foram as perseguições ao jovem Freder pelo espião de seu pai e à Maria pelos operários e, claro, a maioria das cenas em Yoshiwara.

Os personagens Josaphat e “Magrelo” (braço-direito e espião do milionário, respectivamente) e o operário Georgy, também chamado de “Operário 1185” (que fica amigo do jovem Freder) foram desconsiderados, portanto várias cenas das quais participam caíram fora, bem como Rotwang dando as verdadeiras instruções para o robô Futura e o motivo original dele tê-la criado. Até mesmo os cartões foram re-escritos (pelo dramaturgo Channing Pollock).

Rotwang explica seu plano a Fredersen, do qual Futura é parte integrante

Obviamente o filme sofreu com os cortes, tornando-se ao mesmo tempo simplório e incoerente, uma vez que grande parte da intriga, ação e romantismo do filme se perdeu, bem como todo o simbolismo injetado por Lang e espalhado por todo o lugar.

Aceitação

Quando “Metrópolis” foi lançado, a opinião pública ficou dividida: os esquerdistas acharam o retrato dos operários muito radical (mesmo pregando a não-violência), os direitistas acharam o filme comunista demais (mesmo não pregando o fim do capitalismo), os tecnocratas acharam o filme anti-ciência e anti-tecnologia (um deles o próprio H.G. Wells!) e os religiosos acharam o filme muito forte e violento devido às brigas, mortes e orgias no “distrito da luz vermelha” Yoshiwara (bem, os religiosos geralmente não gostam de nada).

A culpa em parte foi do gigantismo do filme: após gastar todo o dinheiro que gastou com o filme mais caro já feito na Europa da época, o estúdio alemão fez publicidade em cima deste fato e acabou criando uma expectatica que não podia ser superada ( nova trilogia de “Guerra nas Estrelas/Star Wars“).

Futura sendo “ligada”

Apesar de tudo, a maior parte dos críticos americanos exaltou o filme, mas nem isso ajudou, uma vez que nos EUA o filme foi lançado um ano depois de seu lançamento na Alemanha (1927), quando a grande novidade passou a ser os filmes falados. Uma pena!

Mesmo assim, o filme nunca foi esquecido e especialmente entre o lançamento de “Guerra nas Estrelas” e “Blade Runner – O Caçador de Andróides” entre o final dos anos 70 e o início dos anos 80 “Metrópolis” começou a ser relembrado – e re-celebrado, uma vez que suas influências nestes filmes mais modernos eram óbvias (mais abaixo).

A cidade de “Metrópolis” e a Coruscant de “Guerra nas Estrelas” (nova trilogia)

Arranha-céus de “Metrópolis” e prédio da polícia em “Blade Runner – O Caçador de Andróides”


Nunca diga não

Devido aos cortes feitos pela Paramount que arruinaram seu filme, Fritz Lang jurou nunca mais trabalhar com Hollywood. E ele cumpriu sua promessa – pelo menos por um tempo.

Mesmo tendo sido realizado em uma época estável da República de Weimar, a fama e importância de “Metrópolis” perdurou e atraiu a atenção dos nazistas quando estes subiram ao poder. E Goebbels ofereceu a Lang e Thea, sua esposa e co-roteirista, cargos de destaque como cineastas do Terceiro Reich.

O casal Fritz e Thea trabalhando em um roteiro

A oferta quebrou não apenas a palavra do diretor, como também seu casamento.

Lang era católico – e bem católico; vemos isto ao longo de todos os seus filmes, e “Metrópolis” não é exceção: o arranha-céus do milionário-líder chama-se “Nova Torre de Babel” (ironicamente, o estúdio onde “Metrópolis” foi filmado chamava-se “Babelsberg“), a certa altura Freder enfrenta os sete pecados capitais num jardim de estátuas, o clímax do filme se passa em uma igreja, em uma parte a máquina central da fábrica se transforma em Moloch (o deus pagão para o qual sacrifícios humanos eram feitos) em uma visão de Freder, quando Maria está sendo perseguida ela é acusada de ser uma bruxa, um dos personagens é um pastor chamado Desertus que compara Metrópolis à Babilônia bíblica… só para mencionar alguns exemplos.

Moloch, o deus a quem eram sacrificadas crianças… (Salomão fez um templo pra ele! Aparentemente este deus só “saiu de moda” no tempo de Jeremias)

Mas a mãe de Lang tinha ascendência judaica e, mesmo ela sendo católica convertida devota, o diretor temia que este fato um dia se voltasse contra ele. Desta forma, enquanto sua esposa se unia ao partido nazista, ele deixava a Alemanha e se unia a Hollywood.

O diretor Fritz Lang

P.S.: Como era de se esperar na época, os americanos o colocaram para fazer vários tipos de filme, até mesmo westerns, mas ele não decepcionou (“Coração de Apache”, “A Volta de Frank James”, “Os Conquistadores”). Mas Lang deixou sua marca mesmo nos filmes noir, entrando de sola com “M – O Vampiro de Dusseldorf”, fugindo do padrão de detetives e femmes fatales e contando uma história forte e sombria sobre um serial killer. Este filme (feito ainda na Alemanha) valeu a Lang a realização de vários filmes noir pros americanos (só pra se ter uma idéia: apenas “Feras Humanas, “Um Retrato de Mulher” e “Almas Perversas” foram feitos no período de dois anos – 1944/1945).


Cena de “M, o Vampiro de Dusseldorf” (que de vampiro realmente não tinha nada)

P.S. (cont.): Lang também fez a famosa trilogia “Dr. Mabuse” (o primeiro antes mesmo de “Metrópolis” e, muito antes de George A. Romero, utilizava o terror para fazer crítica social). O mais curioso foi a atuação de Lang como ele mesmo no filme de Jean-Luc Godard “O Desprezo” (1963) – uma homenagem de um dos ícones de uma “nova geração” a um dos ícones da velha.


Certas coisas nunca mudam: Brigitte Helm no intervalo de “Metrópolis” e Anthony Daniels no intervalo de “Guerra nas Estrelas”

“Metrópolis” é responsável por assentar as bases para o cinema de ficção científica dos anos que viriam. “Blade Runner”, “Os Doze Macacos”, e muitos outros, bebem na fonte criada por Fritz Lang. Ao colocar a temática trabalhista em foco, mostrou também que futurismo não é só máquinas complicadas e roupas justas. É um trabalho imperdível e, até hoje, inimitável.

Trailer Aqui

[Fotos: imagens de divulgação; agradecimentos especiais: Rodrigo Ricardo, Augusto Pedralli]

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